Polifonia – Uma língua, muitas vozes

O mundo lusófono tem em comum o fato de os respectivos países partilharem a língua portuguesa que serve como elemento unificador. Contudo, este espaço é composto por diversas ‘vozes’, expressão das diversas variedades, culturas e identidades, o tornando bastante heterogêneo. O caráter pluricêntrico do mundo lusófono e da sua sociedade caracteriza-se pela sua «diversidade na unidade» reveladora de uma relação historicamente determinada, apesar da sua enorme diversidade cultural e linguística. O conceito polifonia – oriundo do domínio da música e introduzido no campo da filologia por Bakhtin, sendo em ambos os domínios expressão de pluralidade de vozes – caracteriza de forma bastante precisa a realidade do mundo de língua portuguesa. Esta polifonia é realidade linguística quer no caso do português, quer do galego, e não se limita ao contato e à coexistência do português com as línguas africanas, indígenas e asiáticas, nos respectivos países de língua oficial portuguesa e, na sequência de movimentos migratórios, em Portugal. Em Portugal, mas também no Brasil, importa não esquecer o contato com outras línguas europeias. Além disso, o Brasil e os países africanos e asiáticos que adotaram o português como língua oficial ou cooficial no período pós-colonial desenvolveram diversas variedades e normas de uso lingüístico do português. Surgiram assim diversos discursos, diferentes manifestações culturais e literaturas próprias. Além disso, o plurilinguismo e o contato linguístico daí resultante são uma realidade no Brasil e, sobretudo, na Ásia e em África, oferecendo, paralelamente às diversas variedades do português, um enorme potencial de investigação aos estudos linguísticos. O plurilinguismo e a heterogeneidade do português são expressão da complexidade desse mundo, no qual o português é o meio de expressão oficial, e onde as diversas vozes convergem numa só, nomeadamente através de processos de crioulização, para de novo dar origem a diversas variedades.

Na literatura, o conceito da polifonia é utilizado para expressar poliperspectivismo, um princípio da estrutura modo narrativo, na qual diversas perspectivas sobre os acontecimentos da diegese são criadas através da concorrência de perspectivas entre as diversas personagens e o narrador. Este princípio, presente já na literatura europeia antes do século XX, tornou-se sobretudo produtivo no Modernismo e no Pós-Modernismo, na sequência da redefinição do conceito de autor. A heterogeneidade da sociedade nas suas diversas facetas tornou-se uma constante na literatura dos países de língua portuguesa, que reencontramos em todos os gêneros literários e em todas as épocas. Basta pensarmos no caráter pluridimensional do Eu-lírico nas cantigas medievais, nas obras do fundador do teatro português Gil Vicente, na polifonia dos poemas de resistência ao Estado Novo e de subversão social através do recurso à palavra em sentido figurado ou na pluralidade de vozes no teatro de contestação e crítica social. Na obra de Fernando Pessoa, por exemplo, a polifonia toma forma através dos heterônimos que personificam biografias individuais e programas estéticos distintos. O mundo lusófono surge, pois, como um mosaico multicultural, que todavia ainda foi pouco refletido tendo em conta os parâmetros e princípios dos estudos culturais.

Migração e exílio são processos constantes do mundo de expressão portuguesa. O discurso identitário polifônico daí resultante propicia um enorme potencial para estudos a partir da perspectiva tanto das sociedades nacionais, como das sociedades transnacionais emergentes ou a partir de numa visão contrastiva.

Também para a didática do português como língua estrangeira e os estudos de tradução do português o tema da polifonia constitui um importante desafio. A aquisição de línguas estrangeiras encontra-se estreitamente ligada à globalização do mundo moderno e às suas necessidades comunicativas, pelo que se coloca a questão da presença e do papel das variedades linguísticas nos contextos de contato do português como segunda língua. Nesse sentido, aspectos políticos, econômicos e culturais tornam a tradução e a interpretação simultânea um ato complexo, de transpor vozes desconhecidas para ‘outra’ língua, sem que estas se percam.

A polifonia é um conceito que se encontra profundamente enraizado na língua, literatura e cultura dos países de expressão portuguesa e na Galiza. O tema “uma língua, muitas vozes” é, por isso, de suma importância e proporciona a base para uma discussão atual e empolgante, que permite integrar a Lusitanística num contexto interdisciplinar, podendo a polifonia também ser criada por estudos desenvolvidos ultrapassando as fronteiras da disciplina.

Com a realização do 12° Congresso Alemão de Lusitanistas com o tema “Polifonia: Uma língua, muitas vozes” a Associação e a Universidade Johannes-Gutenberg, em Mogúncia, pretendem criar uma plataforma para dar voz às muitas e distintas vozes sobre a polifonia nas suas distintas acepções e variantes.