Secções (setembro de 2017)

I. Literatura

 

Secção 1 – Vozes e letras: polifonia e subjetividade(s) na literatura portuguesa antiga

Coordenação: Tobias Brandenberger (Göttingen) e Maria Ana Ramos (Zurique)

 

Embora a Idade Média não raramente seja considerada uma época de notável homogeneidade discursiva (mesmo em estudos literários), um olhar atento e sensível observa particularidades e desvios tão interessantes quanto surpreendentes.

Quando se propagou a performance poética europeia dos trovadores pelas cortes ibéricas, o vínculo entre poesia, voz e canto suscitou uma concepção poética nova nas variedades linguísticas locais, como o galego-português. Como se adaptaram as correntes poéticas provençais no ocidente ibérico, na Galiza e em Portugal? E como se metamorfoseou esta produção medieval em textos (pré-)renascentistas?

As formas de interlocução, mais harmoniosas ou mais conflituais, entre autores e textos, revelam que o recurso a outras vozes, mesmo em língua alheia, ou em língua traduzida de outros, servem-se da imitatio, da traductio e da innovatio. De facto, surgem (por vezes) vozes individuais, que se articulam em perspetivas discordantes, e que fazem ouvir disposições combinadas, polifónicas. Das cantigas galego-portuguesas ao teatro de Gil Vicente, ao Cancioneiro Geral e à Menina e Moça, subjetividades e polifonia conferem aos textos estéticas próprias. Tudo isto remete para o problema da individualidade na autoria e sugere questões essenciais, como por exemplo a da influência dos contextos socioculturais e poetológicos ou a da relevância da realização plurimedial.

A nossa secção procurará focalizar-se no campo da construção e da pluralidade de vozes na literatura portuguesa antiga, através da análise de diversos casos, com particular atenção aos recursos estratégicos na criatividade literária.

Contacto:

Prof. Dr. Tobias Brandenberger: tbrande@gwdg.de

PD Dra. Maria Ana Ramos: maramos@rom.uzh.ch

 

 

 

  

Secção 2 – Discursos partilhados ou singulares? A poesia épica e os debates intelectuais no século XIX lusófono

Coordenação: Roger Friedlein e Marcos Machado Nunes (Bochum)

 

Nas literaturas lusófonas do século XIX a epopeia constitui um gênero marcante, sobre cuja pertinência e alcance deflagra-se, a partir do Romantismo e depois, um intenso debate. Particularmente no Brasil, a discussão sobre a epopeia constitui uma peça central dos discursos de formação da nacionalidade, mas, assim como em Portugal, também da inovação estética. Notório tem sido, até hoje, o debate entre José de Alencar e Gonçalves de Magalhães, que se desenrola no conflito entre a epopeia e o romance. Contudo, a reflexão e a discussão sobre o gênero e seu significado no contexto das literaturas nacionais emergentes não se esgota neste episódio, central para a história da literatura brasileira do século XIX. O debate diz respeito à produção literária no Romantismo e depois, mas também é de grande relevância para a avaliação que se faz, durante o período, do passado literário. No âmbito do XII Congresso Alemão de Lusitanistas, propomos criar um espaço para a discussão de um horizonte textual e discursivo mais amplo do que a chamada polêmica sobre A confederação dos tamoios. Embora não seja impossível reconhecer contatos e trocas transatlânticas nesse campo, chamam a atenção as condições divergentes em que se produz o discurso metaépico no Brasil, por um lado, onde a problemática central reside na integração do índio e a constituição nacional, e em Portugal, onde pesa mais a relação que os poetas estabelecem com a tradição do gênero desde Camões. Apesar dessas divergências, o discurso metaépico do séc. XIX lusófono forma um conjunto polifacético.

Em conexão com um projeto de investigação financiado pela DFG sobre as transformações da poesia épica no século XIX no espaço iberorromânico, esperamos reunir em Mainz pesquisadores interessados em avaliar como a epopeia se converte em objeto de reflexão no século XIX.

No contexto das transformações culturais do Romantismo, a própria ideia de gênero literário se mostra problemática, levando à transgressão, fusão ou dissolução das normas e expectativas de gênero. No caso da epopeia, a tendência à inovação é contrabalançada pela centralidade do gênero nos cânones literários em formação, com implicações sobre a posição da literatura nos contextos culturais em transformação nos dois lados do Atlântico. Articula-se uma intensa (embora às vezes dispersa) reflexão sobre a poesia épica em discursos que circulam em tipologia textual diversa: paratextos, historiografia e crítica literárias, imprensa, escrita privada (cartas), assim como nos textos literários, em particular, nos próprios poemas épicos, em momentos de autorreflexão.

Na encruzilhada entre conservação e transformação, uma série de temas e questões se apresentam para a discussão no Congresso: Que concepções da tradição épica e da sua possível (ou não) transformação e sobrevivência se apresentam nesses discursos? Em que medida esses discursos se relacionam com o fazer literário? Que relevância é dada ao gênero na formação dos campos culturais e literários? Que outros temas significativos para o período se associam à discussão sobre a poesia épica? Quais as possibilidades de uma perspectiva transatlântica na avaliação desses discursos? Que concepções de autoria e seu lugar institucional estariam em jogo?

Convidamos os interessados em discutir essas questões e/ou propor outras indagações sobre o tema a participar da nossa seção.

Contacto:

Prof. Dr. Roger Friedlein: roger.friedlein@rub.de

Dr. Marcos Machado Nunes: marcos.machadonunes@rub.de

 

 

  

 

Secção 3 - Vozes do além – Poliperspectivismo no exemplo de figuras mortas

Coordenação: Sarah Burnautzki (Mannheim), Ute Hermanns (Berlin) e Janek Scholz (Aachen)

 

A morte é sem dúvida um tema clássico da literatura e das letras. Partindo da dança medieval dos mortos, passando pela morte personificada como a alegoria vanitas, típica do barroco até chegarmos ao desejo da morte mística do “Eu” lírico do romanticismo – não é à toa que a literatura fantástica é povoada de fantasmas, mortos e ressuscitados. Na mídia, no cinema, a representação da morte e dos mortos ressuscitados não pode ser esquecida.

 

O fascínio pela morte liga as épocas mais diversas, mídias, gêneros e culturas. A morte como experiência fronteiriça extrema oferece igualmente o impulso para colocar a pergunta sobre o sentido metafísico, como também sobre as transgressões literárias no limiar entre ficção e realidade.

 

Como as reflexões a respeito da morte se apresentam em uma perspectiva narratológica? Quais são as implicações específicas da ressurreição ficcional de personagens e da narração de narradores mortos? Ao contemplar os mortos que regressam e os narradores mortos, constata-se que eles não são nenhuma raridade e se encontram em toda parte no espaço/mundo lusófono. Aparecem nos romances de José Saramago ou de Mia Couto, de José Eduardo Agualusa, Machado de Assis ou Jorge Amado, como também de Murilo Rubião, para mencionar só alguns autores. Eles também se apresentam nas adaptações literárias para o cinema, como Dona Flor e seus dois maridos (1977), de Bruno Barreto, e A morte e a morte de Quincas Berro d’Água (2010), de Sérgio Machado, filmes nos quais os mortos participam da ação fílmica. A adaptação literária de André Klotzel das Memórias Póstumas de Brás Cubas (2001), na qual o personagem principal falecido conta a sua vida em retrospectiva e a comenta „do além“, mostra pela narrativa em off a relação estreita e normal dos mortos com os vivos e como eles entram em diálogo.

 

Também os vivos procuram o diálogo com os mortos, esperam pelas mensagens do além ou buscam uma resposta oriunda do futuro. Assim, existem múltiplos textos na literatura brasileira, nos quais os protagonistas procuram apoio, explicações ou instruções para a visita a uma cartomante. A comunicação com os mortos e a leitura do futuro como um ato de recepção carrega a ação. No entanto, essa comunicação não resulta normalmente na melhoria almejada das circunstâncias da vida, mas, muito pelo contrário, na morte dos protagonistas. Que a morte dos protagonistas estimula a narração de uma forma particular, é algo que se torna visível através de vários gêneros. Assim, Fábio Moon e Gabriel Bá narram na novela gráfica Daytripper a repetida morte do protagonista Brás, que alcança em cada capítulo uma idade diferente. Desta forma, os autores criam uma serialidade carregada pelas imagens da morte. Um filme como Cartas da guerra (2016), de Ivo M. Ferreira, baseado nas anotações de António Lobo Antunes D’este viver aqui neste papel descripto – cartas da guerra (2005) dedica-se à guerra colonial de Portugal em Angola e transforma o narrador em um observador espantado, jogado num mundo que dialoga com os mortos. O filme testemunha que o trabalho da memória dos últimos anos tem desempenhado um papel importante no filme lusófono.

 

Roland Barthes constata, no sentido do pós-estruturalismo, a „morte do autor“ e Michel Foucault reduz a „aura“ do gênio romântico à função mínima de autor no texto. Para além disso, pretendemos colocar nesta seção a pergunta sobre as consequências narratológicas da „morte do narrador“ como da presença literária e filmica dos mortos encarregados de ação ou até seguir os narradores mortos e ligá-los ao conceito de poliperspectivismo de Bakhtin.

 

As reflexões de Bakhtin a respeito do poliperspectivismo no romance moderno serão continuadas sem dogma. Discutiremos como a morte apresenta uma (auto)compreensão modificada das figuras, do narrador, como também do autor, e o que narratologicamente acontece depois da “morte do narrador” e como as figuras e narradores mortos, semi-mortos e não-mortos podem entrar em uma relação de concorrência com o autor ou os outros narradores. Podemos observar isso, por exemplo, nos textos de Clarice Lispector, onde a morte ameaçadora dos protagonistas gera uma outra narração e o narrador não só entra conscientemente em cena, como também reflete o seu papel de forma ativa, o que coloca sob nova luz o conceito pós-estruturalista da “morte do autor”.

 

Nesta seção, trataremos a questão de como as personagens e os narradores mortos desafiam a relação realista e comprovada com a realidade, como também desafiam a relação entre vida, morte e poesia, entre arte e realidade. Para que tipo de jogo especial nos convidam os narradores e protagonistas mortos a respeito de pensamentos e caminhadas nos limiares? Quais são as vozes culturais e críticas que dialogam do além ficcional? Também a representação dos mortos na literatura que ressuscitaram no filme, merece uma observação particular no contexto de uma análise poliperspectivista. Devem ser examinadas as consequências para os filmes baseados em literatura e os seus meios. Partindo da observação de que o fenômeno narratológico do poliperspectivismo paranormal e pós-morte pode ser observado em todas as culturas do mundo lusófono, convidamos nesta seção a uma abordagem comparativa, cultural e literária, atravessando os meios das diversas formações e configurações de figuras mortas, para chegarmos a uma compreensão mais ampla deste fenômeno.

Contacto:

Dra. Sarah Burnautzki: burnautzki@phil.uni-mannheim.de

 

 

  

   

Secção 4 – Polifonia intercultural: vozes e motivos de outras línguas e culturas na literatura da Galiza e do mundo lusófono

Coordenação: Axel Schönberger (Bremen) e Rosa Maria Sequeira (Lisboa)

 

Desde a Idade Média até ao mundo atual, na Galiza e nas literaturas do mundo lusófono são explorados literariamente vozes e motivos provenientes de outras línguas e culturas. A antiguidade greco-romana, o antigo testamento hebraico, bem como o mundo islâmico multilingue e multicultural, foram enriquecendo a literatura de expressão portuguesa desde o tempo medieval. As literaturas europeias mais influentes, nomeadamente a catalã, a espanhola, a italiana, a francesa, a inglesa, a alemã e a russa chegaram a Portugal e depois a todos os continentes a partir do século XV, proporcionando contactos multiculturais na Africa, Asia e América e encontrando a sua expressão literária polifónica.
A polifonia das literaturas em língua portuguesa mostra-se, em primeiro lugar, na ficcionalização de figuras históricas, grupos sociais e étnicos como, por exemplo, os árabes muçulmanos da Idade Média e da Modernidade e, em segundo, na apropriação de personagens literárias que atravessam obras doutras literaturas tais como Ulisses, Édipo ou Don Juan, e ainda na representação literária e fílmica de personalidades que falam outra língua e são oriundas de outra cultura, como sejam os escravos africanos na literatura brasileira e os orientais na literatura portuguesa ou ainda mais recentemente os europeus de leste. Talvez como poucas literaturas, a literatura de expressão portuguesa possui uma polifonia multicultural e diferentes perspetivas culturais nas quais a marca das vozes de todo o mundo se torna presente. A literatura de língua hispânica no início da Idade Moderna e a literatura novilatina de Portugal e Brasil pertencem ao círculo das literaturas do mundo lusófono, mesmo que na atualidade algumas vezes isto possa ser escamoteado e se encare de um ponto de vista a-histórico e monolingue tal como se entendia no século XIX.
As contribuições desta secção poderão incidir ou em obras e autores singulares ou, em alternativa, em perspetivas abrangentes de como a polifonia, as vozes ficcionadas e os motivos de fora do mundo lusófono são nele ficcionalizados através da literatura e do cinema.
As atas serão publicadas em Lusorama - Revista de Estudos sobre os Países de Língua Portuguesa.
Contacto:
Prof. Dr. Axel Schönberger: schoenberger@uni-bremen.de
Profa. Dra. Rosa Maria Sequeira: Rosa.Sequeira@uab.pt

 

 

 

 

II. Linguística

 

Secção 5 – Contatos linguísticos na sequência da expansão (marítima) portuguesa

Coordenação: Gerda Haßler (Potsdam) e Barbara Schäfer-Prieß (Munique)

 

Quando no início do século XV as nações marítimas peninsulares iniciaram o empreendimento marítimo, os portugueses entraram bastante cedo em contato com diversos povos, culturas e línguas. As consequências deste contato linguístico para as línguas de contato europeias e extra-europeias irá constituir o foco desta seção.

 

O contato linguístico resultante da expansão marítima originou variação linguística que se manifesta na polifonia do espaço lusófono e que resultou em diversos processos de mudança linguística. As variedades linguísticas daí resultantes podem ser o tema desta seção, bem como processos de mudança linguística favorecidos pelo contato linguístico ou empréstimos das línguas de contato africanas, asiáticas e/ou ameríndias no português e vice-versa. Bem-vindas são igualmente comunicações dedicadas aos temas linguística missionária, línguas crioulas de base portuguesa, processos de contato linguístico e variação e mudança linguísticas como consequência nas variedades europeias e extra-europeias do português. Estes contatos linguísticos e as variedades daí resultantes são fonte de representações linguísticas subjetivas em textos e diálogos, constituindo esta “polifonia fingida” outro núcleo temático desta seção.

 

Quanto à abordagem a nível interno da língua da variação linguística no mundo lusófono, as abordagens poderão ser diacrónicas ou sincrónicas.

 

Contacto:

Profa. Dra. Gerda Haßler: gerda.hassler@uni-potsdam.de

PD Dra. Barbara Schäfer-Prieß: barbara.schaefer@romanistik.uni-muenchen.de

 

 

 

III. Mídia

  

Secção 6 - Cultura sonora lusófona: música, voz e som na transposição midiática

 

Coordenação: Vinicius Mariano de Carvalho (Londres) e Peter W. Schulze (Bremen)

 

Os países de língua portuguesa são caracterizados por uma grande diversidade de culturas auditivas, expressas em inúmeras manifestações. Meios de comunicação desempenham um papel central, não só na distribuição transregional de música, vozes e sons, mas também na geração de novas formas de som específicas de mídia. Enquanto performances auditivas anteriores às mídias se caracterizaram por uma “estética da presença” (E. Fischer-Lichte), novas espécies estéticas surgiram através de várias formas de mediação, cada uma com uma estética de mídia específica. As diversas produções midiáticas auditivas e audiovisuais multiplicaram e modificaram a cultura sonora tradicional e presentista.

 

Esta seção é dedicada à cultura sonora lusófona em suas dimensões específicas da mídia. Serão abordados simultaneamente música, voz e som na maneira como são expressos em vários meios de comunicação – como em vários fonogramas, em rádio, cinema, vídeo e internet. De particular interesse aqui são gêneros específicos de mídia, como o Hörspiel, a ópera radiofônica, o filme musical, as instalações de som e vídeo, para citar apenas alguns exemplos de formas de realização. A seção se vê como um fórum no qual diferentes disciplinas – especialmente a mídia, arte, literatura e musicologia – estabelecem um diálogo produtivo, a fim de mapear as diversas e complexas manifestações mediatizadas da cultura sonora no espaço lusófono. Acolhe-se resumos que reflitam as dimensões específicas da mídia de manifestações auditivas. São bem-vindas especialmente apresentações comparativas que abordem as mudanças de mídia através de adaptações.

Contacto:

Dr. Vinicius Mariano de Carvalho: vinicius.carvalho@kcl.ac.uk

Dr. Peter W. Schulze: pschulze@uni-bremen.de

 

 

 

  

IV. Tradução

 

Secção 7 – A voz da tradução e as vozes na tradução – Contrapontos e modalizações em traduções literárias, fílmicas e artísticas

Coordenação: Susana Kampff Lages e Johannes Kretschmer (Niterói - Rio de Janeiro)

 

Nosso simpósio pretende focalizar a tradução como espaço privilegiado de acolhimento, expressão e transformação de múltiplas vozes autorais e culturais. Entende-se aqui voz como um elemento que não coincide com a ideia de uma oralidade enquanto plano contraposto ao da escrita. Embora transformada, a voz se encontra presente na escrita e, além disso, pode se constituir ela mesma escrituralmente e remeter a uma dimensão corporal mais ampla. Esse jogo propriamente polifônico, encenado sempre de novo em cada obra artística singular deverá ser objeto de exame em diferentes formas de tradução, seja a tradução de textos verbais orais ou escritos do acervo de diferentes culturas, seja a transposição de obras literárias para outros códigos artísticos. Nesse sentido, cabe destacar o papel da alteridade em toda e qualquer inscrição vocal, um elemento que será tanto mais ressaltado no processo tradutório, como um rastro que jamais pode ser apagado e que se inscreve de forma sempre nova a cada nova tradução.

Trabalhos que apresentem o tradutor e a tradução como efeito desse particular jogo de vozes em harmonia ou desarmonia, temporalmente marcadas ou extemporâneas, espacialmente situadas ou deslocadas são especialmente bem-vindos, bem como propostas que analisem elementos prosódicos e rítmicos. Nesse sentido, seria interessante investigar o modo como a tradução opera a transposição e a necessária transformação de toda uma gama de elementos musicais, como contrapontos, harmonias, melodias, ritmos. Tendo em vista o caráter do evento, interessa-nos particularmente receber também trabalhos que contemplem a diversidade linguística e cultural intrínseca ao mundo dos países de língua portuguesa e seus reflexos sobre práticas tradutórias e as práticas editoriais nelas inscritas.

Também serão aceitos trabalhos que se dediquem a examinar conceitualmente o fenômeno vocal, a partir de pontos de vista diversos, tais como os fenomenológicos, poético-literários, histórico-culturais e antropológicos e que busquem examinar as transformações de uma ou mais vozes em processos translatícios que tenham como objeto obras esteticamente elaboradas.

Kontakt:

Dr. Johannes Kretschmer: johkre@gmx.net

Dra. Susana Kampff Lages: susanaklages@hotmail.com

 

 

  

   

V.  Estudos Culturais

 

Secção 8 – Olhares cruzados: pós-memórias do fim do colonialismo português em perspetiva comparada

Coordenação: Margarida Calafate Ribeiro e Júlia Garraio (Coimbra)

 

Nos últimos anos tem-se assistido em Portugal a uma crescente produção artística em torno do passado colonial português em África e das suas heranças na atualidade. Entre outros, veja-se a projeção mediática que acompanhou a publicação de textos como Caderno de Memórias Coloniais (2009) de Isabela Figueiredo (n. 1963), o romance O Retorno (2011) de Dulce Maria Cardoso (n. 1964), Os Pretos de Pousaflores (2011) de Aida Gomes (n. 1967) ou Esse Cabelo (2015) de Djaimilia Pereira de Almeida (n.1982). No cinema atente-se em produções como Tabu (2012) de Miguel Gomes (n.1972), Cartas da Guerra (2016) de Ivo Ferreira (n.1975) ou Posto Avançado do Progresso (2016) de Hugo Vieira da Silva (n.1974). Nas artes plásticas, veja-se, por exemplo, a exposição Botânica (2014) de Vasco Araújo (n.1975). Recorde-se também o programa cultural que acompanhou a exposição Retornar: Traços de Memórias (2015-16). Os Vampiros (2016) de Filipe Melo (n.1977) e Juan Cavia, que nos transporta para a guerra na Guiné-Bissau em 1973, teve um impacto mediático pouco comum num país em que a banda desenhada costuma ser remetida para um público muito restrito. Títulos como estes (outros haveria a citar) sugerem que o debate e a reflexão sobre as heranças do colonialismo na sociedade portuguesa contemporânea estão a ser protagonizados por quem “veio depois”, isto é, por quem não tem memórias próprias da época colonial ou dela tem apenas recordações difusas.

 

O que parece delinear-se em torno dos debates que acompanharam estas obras é um repensar o ano de 1974 como momento fundador do Portugal democrático através do impacto da questão colonial. Visibilizam-se processos históricos como os fluxos migratórios que acompanharam o fim do domínio português em África e confrontam-se questões como o racismo herdado do passado colonial. Em suma, reclama-se um olhar pós-colonial para o Portugal contemporâneo.

 

Esta sessão temática pretende promover uma perspetiva comparada que traga para o debate sobre as heranças do colonialismo português as pós-memórias dos/as artistas dos países africanos que lutaram contra o domínio português. Como as gerações que cresceram no período pós-independência recordam o momento fundador das respetivas nações? Em que medida as guerras e os eventos que culminaram na libertação nacional são recuperados pelas gerações mais jovens para questionar e delinear identidades individuais e nacionais? Em que medida esses/as artistas entendem os conflitos e guerras que marcaram as novas nações como processos fortemente enraizados nas heranças coloniais? Como esses/as artistas articulam as lutas de emancipação no passado com as sociedades atuais de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe? Até que ponto as identidades pós-coloniais são entendidas como produto do colonialismo e das lutas anticoloniais?

 

Aceitamos propostas de comunicação que, a partir de diversos campos artísticos (literatura, BD, cinema, artes plásticas, artes performativas), nos permitam um olhar comparativo e multifacetado sobre as pós-memórias e heranças do colonialismo português na atualidade. Aceitamos estudos comparativos entre países envolvidos nesse processo histórico bem como análises focadas em determinado espaço geográfico ou determinado/a autor/a. Pretendemos com estes estudos contribuir para um espaço de pós-memórias partilhadas que permita às sociedades atuais escaparem às armadilhas das memórias e das identidades únicas e excludentes.

 

Esta secção temática realiza-se no âmbito de MEMOIRS – Filhos de Império e Pós-Memórias Europeias, projeto financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC Consolidator Grant nº648624; Margarida Calafate Ribeiro).

 

Projetamos a publicação de um livro com textos produzidos a partir das comunicações no congresso. As línguas da secção temática são o português e o alemão.

Contacto: juliaga@gmail.com

 

 

 

  

Secção 9 - Redes intelectuais no século XIX: uma visão panorâmica através das revistas culturais no Brasil, em Portugal e na África de expressão portuguesa

Coordenação: Ricarda Musser (Berlim) e Christoph Müller (Berlim)

 

Ao longo do século XIX as revistas de cunho cultural tornaram-se num meio ativo de intercâmbio sobre todas as questões do desenvolvimento social e cultural. Os debates sobre o valor da Literatura e traduções na construção de uma identidade nacional e cultural constituíram parte integrante deste processo, sobretudo, perante tão profundas transformações como a independência do Brasil em 1822, o fim do império brasileiro, em 1889, e a proclamação da república portuguesa, em 1910. Atualmente, estas revistas representam uma fonte importante, não só para as ciências literárias e culturais, mas também para a sociologia e a história.

 

Neste quadro cumpre analisar, por um lado, aquelas revistas culturais que tenham como foco a língua e a herança cultural comum dos países lusófonos. É, por exemplo, o caso de algumas publicações surgidas no primeiro terço do século XIX, em língua portuguesa, em Paris, ou o caso da revista lisboeta Brasil – Portugal (1899-1914), que remete, logo no título, para estes fatores comuns. Por outro lado, deverão ser salientadas as revistas culturais, nas quais o Brasil e Portugal se situam, em redes culturais e interculturais, regionais e suprarregionais, encontrando aqui a sua própria voz.

 

Os tópicos para a secção são, entre outros:

 

·       Que influências estrangeiras se refletem claramente no desenvolvimento da Literatura e Cultura das revistas culturais brasileiras e portuguesas, no século XIX?

 

·   Até que ponto as contribuições do mundo lusófono são percetíveis e debatidas nas revistas culturais de outros países?

 

·   Quais as áreas temáticas que dominam o debate, quando e porquê?

 

·   Quais as repercussões que os debates têm nas revistas culturais, nas traduções literárias e no desenvolvimento da atividade editorial e livreira, no Brasil e em Portugal?

 

·   Haverá, já neste período, vozes próprias vindas da África e da Ásia lusófonas, que sejam também reconhecidas?

 

Serão bem-vindas, nesta secção, contribuições nas áreas das Ciências Culturais, Literatura (Comparada), Ciências da Comunicação e Ciências da Tradução.

 

Contacto:

Dra. Ricarda Musser: musser@iai.spk-berlin.de

Dr. Christoph Müller: mueller@iai.spk-berlin.de 

 

 

  

 

Secção 10: Relações transculturais: a Alemanha e Portugal na época da primeira globalização

Coordenação: Yvonne Hendrich (Mogúncia), Thomas Horst (CIUHCT, Lisboa) e Jürgen Pohle (CHAM, Lisboa)

 

As expedições marítimas de Portugal e a consequente divulgação da língua portuguesa marcam o início histórico de um processo de globalização que originaria o desenvolvimento de um espaço lusófono, estendido a todos os continentes, que se carateriza por heterogeneidade, polifonia e diversidade cultural. Os empreendimentos transoceânicos portugueses conduziram, na viragem da Idade Média para a Idade Moderna, à era da Expansão Europeia, geralmente designada como “Época dos Descobrimentos”, tendo impacto imediato na génese das relações luso-alemãs. À medida que os sucessos dos portugueses no ultramar avançavam, Portugal e as terras ultramarinas ganhavam cada vez mais importância para os alemães que, com crescente interesse, acompanhavam o decurso das descobertas portuguesas. Tal resultou, desde meados do século XV, numa notável intensificação dos contactos luso-alemães ao nível político, económico e cultural. Vários diplomatas, eruditos, mercadores, artesãos e aventureiros viajaram da Alemanha para Portugal e para o império colonial português. A aproximação entre as emergentes dinastias de Habsburgo e de Avis desembocou em vários matrimónios reais, dos quais o casamento de D. Leonor de Portugal (1436–1467) com o Imperador alemão Friedrich III. (1415–1493), no ano de 1452, marca o começo. A Expansão Portuguesa contribuiu, decisivamente, para que as grandes casas comerciais da Alta Alemanha, no início do século XVI, interviessem no comércio marítimo, estabelecessem feitorias em Lisboa e enviassem os seus agentes para a Índia; fomentou o interesse humanístico dos eruditos alemães, e influenciou, ainda, a arte e a cultura no Sacro Império Romano-Germânico.

Agentes comerciais e viajantes alemães participaram em várias expedições portuguesas a África, à Ásia e à América do Sul, sobre as quais relatos de viagens, material cartográfico e o famoso globo de Martin Behaim (1492) em Nuremberga dão testemunho. Sem dúvida, a tipografia, que, na Península Ibérica, se encontrava, maioritariamente, nas mãos de tipógrafos de origem alemã (como, p. ex., Valentim Fernandes), ajudou a acelerar o processo de circulação e divulgação de informações dos “Novos Mundos” pela Europa na época da primeira globalização. A receção do “Outro” e do exótico também ocorreu ao nível iconográfico, como mostram, entre outras, xilogravuras e pinturas de Albrecht Dürer e Hans Burgkmair.

Numa época, na qual a expansão marítima começou a alargar o horizonte geográfico do mundo até então conhecido, uma rede de comerciantes, eruditos, tipógrafos, editores, artesãos e artistas do espaço de língua alemã – motivados por razões económicas, interesse científico e curiosidade – veio a desempenhar um papel fulcral na transferência cultural e na divulgação de conhecimento das notícias sobre os “Novos Mundos” entre a Península Ibérica e o Sacro Império Romano-Germânico:

"Em suma, os Descobrimentos Portugueses contribuíram não só para que a Europa descobrisse um novo mundo, mas também para que a Europa se descobrisse a si própria." (Marília dos Santos Lopes: “Os descobrimentos portugueses e a Europa”, in: Mathésis 2000: 233-241, p. 234)

A secção planeada visa focar as intensas relações entre Portugal e a Alemanha nos séculos XV e XVI, que possam ser abordadas interdisciplinarmente de várias perspetivas (política, economia, sociedade, cultura, etc.). As propostas de comunicação podem orientar-se nos seguintes aspetos:

O impacto da Expansão Portuguesa no desenvolvimento do espaço lusófono

- Relatos e correspondências sobre viagens entre Portugal e a Alemanha ou para Ultramar (África, Ásia, Brasil)

-  Motivos económicos e a participação das casas comerciais da Alta Alemanha no comércio ultramarino

- Relações dinásticas entre Portugal e a Alemanha

- A tipografia na divulgação de informações sobre os “Novos Mundos”

- Receção de testemunhos cartográficos e cosmográficos (mapas, roteiros, globos, etc.)

- A receção artística e adaptação do “Outro” na literatura, na pintura e na arte plástica

- A fascinação pelo exótico que se manifesta em coleções de objetos e artefactos (“Wunderkammern”, etc.)

- Tratados filosóficos sobre a ampliação do conhecimento e a superação de ideias e conceções das autoridades antigas

As línguas da secção são o português e o alemão.

Contacto:

Dra. Yvonne Hendrich: hendric@uni-mainz.de

Dr. Thomas Horst: thomashorst@gmx.net

Prof. Dr. Jürgen Pohle: jpohle65@gmail.com

 

 

 

 

Secção 11: Futebol e política

Coordenação - Elcio Loureiro Cornelsen (Belo Horizonte) e Marcel Vejmelka (Mogúncia/Germersheim)

 

Futebol e política estão associados de maneira estreita e profunda desde o surgimento dessa modalidade esportiva, hoje mundialmente popular. Ao enfocar o mundo lusófono, marcado por intenso entusiasmo pelo futebol, surgem ideias muito interessantes sobre as linhas de desenvolvimento histórico de suas nações, sociedades e culturas. No universo atual do futebol, também se refletem crises sociais e políticas, bem como cisões do presente.

 

O futebol sempre foi e ainda é uma questão política num sentido positivo e negativo; a profissionalização do esporte nas primeiras décadas do século XX fez com que certas barreiras de classe e de “raça” se rompessem; regimes autoritários, com grande frequência, não medem esforços em instrumentalizar e ideologizar esse esporte preferido das massas, seja como “ópio do povo”, seja em forma de seleções nacionais carregadas de sentido ufanista. Ao mesmo tempo, o futebol sempre foi um instrumento de protesto e de resistência política, e até mesmo objeto de reflexão político-filosófica sobre o chamado “futebol de direita e de esquerda”.

 

Tomada em sentido mais amplo, a política também permeia o futebol e suas culturas, e pode ser investigada com base em discussões históricas e atuais. Exemplos disso seriam certos aspectos como a “política” de transferência de clubes no futebol globalizado, a transformação de “heróis” tradicionais em “ídolos” globais, bem como o conflito entre torcedores tradicionais e a crescente comercialização do jogo.

 

O futebol apresenta um paradoxo aparente: enquanto jogo, prescinde de palavras para desenvolver os seus significados. No entanto, esse jogo é rodeado e atravessado por uma rede complexa de vozes, enunciados e discursos que constituem, continuamente, a sua importância cultural e social. Compreendido come "fenômeno social total" (Marcel Mauss), o futebol reúne em si uma série de vozes: a de seus atores e agentes − jogadores, técnicos, árbitros etc. −, as vozes da assistência − torcedores em geral, torcidas organizadas etc. −, e as vozes da mídia − Rádio, Imprensa, TV, redes sociais etc. Tais vozes podem ganhar expressão também na literatura, na música e nas artes.

 

Nesta seção serão bem-vindas contribuições que reflitam sobre a relação entre o futebol e a política no mundo lusófono a partir de uma perspectiva específica, bem como inter ou transdisciplinar. Além do diálogo entre abordagens culturalistas, linguísticas e sociais, através da totalidade das contribuições, a seção tem por meta também possibilitar um olhar comparativo para o futebol em suas diversas dimensões nacionais e regionais da Lusofonia. Porque, por seu caráter transdisciplinar e polifônico, o futebol enquanto objeto de estudo em sua relação com a política permite uma série de possibilidades, potencializadas no universo lusófono, em que há “uma língua” e “muitas vozes”.

 

As línguas da seção são o português e o alemão.

Contacto:

Prof. Dr. Elcio Loureiro Cornelsen: emcor@uol.com.br

Dr. Marcel Vejmelka: vejmelka@uni-mainz.de

 

  

  

 

VI. Didática

 

Secção 12 – Variedades do Português no ensino secundário e superior

Coordenação: Daniel Reimann (Duisburg-Essen)

 

No sistema educativo da Alemanha, o português continua a ser uma língua mundial negligenciada (cf., p.ex., Reimann 2014). A pluricentricidade da língua portuguesa constitui um desafio e coloca as seguintes questões aos docentes de língua: Qual variedade deveria ser maioritariamente ensinada? Em que medida se deveria ter em conta outras variedades para contribuir para uma divulgação do português como língua de dimensão e relevância mundial?

 

Precisamente em tempos de um ensino de língua estrangeira de cariz inter e transcultural, a integração de variedades diatópicas como base de análise das diferentes culturas lusófonas ganha especial e maior importância. Simultaneamente, a consciência do reconhecimento de diversas variedades de uma só língua pode servir como mais um elemento essencial para o desenvolvimento de plurilinguismo.

 

Neste contexto, a secção pretende reunir participantes envolvidos nos processos de ensino institucionalizados – professores de Português Língua Estrangeira (PLE) e os seus instrutores, investigadores das diversas áreas da linguística, etc. – para debater a questão da pluricêntricidade – ou conforme o tema do 12° Congresso da Associação Alemã de Lusitanistas «Polifonia – Uma língua, muitas vozes», a polifonia do mundo lusófono de uma perspetiva didática e para avaliar possibilidades de aprendizagem/aquisição das variedades no ensino escolar e universitário do Português.

 

Possíveis abordagens podiam partir de estudos recentes na área da linguística variacional do português (p.ex., Merlan / Schmidt-Radefeldt 2013) como também o conceito da didática de língua estrangeira de pelo menos uma competência variacional receptiva, elaborado e exemplificado para o francês e o espanhol (cf. Reimann 2011 e no prelo).

 

As contribuições para esta secção podem, nomeadamente, debruçar-se sobre as seguintes questões ou desenvolver-se no âmbito dos seguintes paradigmas de investigação:

 

Abordagem teórico-conceitual:

 

·       Quais as caraterísticas variacionais no contexto lusófono relevantes de um ponto de vista didático e educativo?

 

·       Quais as variedades que necessitam de uma atenção especial no ensino do português?

 

·       É suficiente o conceito de uma competência variacional receptiva para o português? Ou serão necessários outros conceitos para abranger a polifonia do português na íntegra?

 

·       Como elaborar um currículo de competência variacional para o português?

 

·       Qual o papel da polifonia da lusofonia no âmbito de abordagens da didática do plurilinguismo?

 

 Abordagem empírica:

 

·       Quais as variedades faladas pelos aprendentes do português nos países de língua alemã?

 

·       Quais as variedades procuradas pela economia?

 

·       Quais as posições de aprendendes perante as respetivas variedades da lusofonia?

 

·       Quais as competências desenvolvidas pelos aprendentes no ensino atual do português?

 

·       Quais as caraterísticas variacionais descodificadas e avaliadas por falantes de outras variedades (linguística variacional perceptiva)?

 

Abordagem pedagógica:

 

·       Quais os conceitos de ensino aos diversos níveis para transmitir variedades de forma científica, mas também de forma compreensível para os aprendentes como destinatários?

 

Contacto:

Prof. Dr. Daniel Reimann: daniel.reimann@uni-due.de

 

 

 

 

VII. Secção interdisciplinar

 

Secção 13 – Água e Engenharia Hidráulica no Espaço Lusófono

Coordenação: Helmut Siepmann, Ineke Phaf-Rheinberger e Kurt Schetelig (Aachen)

 

In Memoriam Anne Begenat-Neuschäfer (1953-2017).

 

Água é uma matéria básica e decisiva para a história da humanidade. As culturas mais antigas se situam nos oásis do Médio Oriente e da Mesopotâmia. Os deuses dos rios e dos mares estão gravados nos seus mitos. A água é o mais importante alimento de base, fundamental para a agricultura, o comércio e a indústria; constitui a condição para o desenvolvimento da vida urbana e de todas as aglomerações citadinas. Suas formas diferentes de representação (chuva, orvalho, neve, etc.), como água doce nos rios e lagos ou como água salgada nos oceanos, motivaram desde muito cedo poetas e pintores a pensar nesta matéria, em sua escassez nas zonas áridas e na sua abundância devido a inundações, assim como em sua ameaça por tempestades (dilúvios ou manrakes). Isto foi documentado a partir do Antigo Testamento nas epopeias, poemas e romances. Para o espaço lusófono, a navegação e a conquista dos oceanos pelos portugueses nos séculos XV e XVI fundavam uma referência cultural fundamental. O comércio triangular no Oceano Atlântico liga os continentes e cunha por muitos séculos as relações entre os povos respectivos.

 

(1) A água e sua percepção na literatura e nos média como elemento ambivalente da ligação e da separação, como abundância e escassez, como produtor próprio da energia e como destruidor constituem um eixo prioritário na nossa secção.

 

Duma maneira polifónica e multidisciplinar se analisam e avaliam textos, objetos e filmes de Portugal, Brasil, e países africanos, pondo-lhes num diálogo com as opiniões dos engenheiros hidráulicos. O elemento fundamental da vida, água fresca, é simultaneamente portador de paz e motivo de conflitos bélicos. Hoje se reclama água como um direito humano essencial ao nível global, e já observamos lutas violentas pelos seus recursos. No espaço lusófono se encontram as águas do Amazonas, seguidas pelas de Congo, como os maiores recursos hídricos do mundo (mais de 25%). Em contrapartida, se encontram também o sertão seco do Nordeste do Brasil ou as regiões de escassez em Moçambique. Nossa preocupação será entender como as paisagens de água doce com seu carácter único e sua importância para a vida e o desenvolvimento estão representadas e valoradas, como sua insuficiência ou sua escassez se manifesta nas literaturas de língua portuguesa.

 

(2) Estas questões constituem um segundo ponto crucial para a nossa secção.

 

Algumas das causas da escassez do recurso hídrico estão ligadas ao desmatamento das florestas tropicais, ao manuseio extravagante da água subterrânea, ou à eliminação pouco profissional das águas residuais de cada tipo. É conhecida a extrema poluição de algumas baías do Rio de Janeiro ou a carga máxima de muitos rios no Brasil pelo mercúrio dos garimpeiros; em São Paulo muitas das correntes aquáticas pequenas se hão convertido em cloacas fedorentas devido a seu manuseamento impróprio na cidade; muitas vezes pode-se dizer algo parecido para Angola e Moçambique. Portugal desenvolveu sua economia hidráulica a um nível muito alto e pode ser entendido como um exemplo para o manuseamento responsável com este recurso.

 

(3) Em que medida é esta problemática já um tema nas literaturas portuguesas? De que maneira se inscreve o tratamento cultural deste recurso mais importante da humanidade numa relação alterada com a natureza? Qual é a importância antecipadora da literatura e cultura neste contexto? Este terceiro ponto básico é o mais importante da nossa secção e desafia os engenheiros de hidráulica, porque só no diálogo com eles pode desenvolver-se a polifonia das aproximações culturais como só uma voz, que pode contribuir para uma mudança de mentalidade sustentável.

 

O INEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil) em Lisboa, na sua capacidade de Instituto de Engenharia Hidráulica criou bases essenciais para a construção das barragens modernas, que têm fama internacional. Dentro de Portugal este instituto marcou de maneiras diferentes a paisagem de barragens nas cercanias do Douro e na sua bacia hidrográfica. Assim surgiu por via da disposição das massas aquáticas suficientes uma paisagem cultural no centro de Portugal, cujas férteis consequências não foram valorizadas suficientemente.

 

No Brasil, a Itaipú Binacional realizou projetos fundamentais de engenharia hidráulica no Paraná com a Usina hidrelétrica Itaipú, nessa altura a maior do mundo. Conseguiu-se criar um projeto de construção hidráulica enorme neste lugar, que é muito coerente com a paisagem. Ademais foi possível assegurar aos trabalhadores durante o tempo da construção e, depois da sua inauguração, um emprego seguro e rendimentos. No mesmo momento da sua inauguração, a cidade Itapú se havia desenvolvido numa urbanização com cerca de 40.000 habitantes, todos empregados, o que significa um sucesso exemplar e excepcional num mundo onde esforços parecidos muitas vezes só deixaram cidades fantasmas empobrecidas Estas interações positivas entre tecnologia, interesses ecológicas e sociais, e desenvolvimentos sociais e culturais férteis, tampouco foram valorizadas suficientemente no Brasil. Em África devem-se pesquisar e eventualmente estimular positivos desenvolvimentos parecidos pelo complexo Cahora Bassa. Talvez seja possível, assim, dar um estímulo produtivo para o estuário do rio Zambese no sentido económico e cultural.

 

Gostaríamos de observar as formas de representação da água desde perspectivas diferentes e desta maneira documentar e analisar no sentido literal e figurado a água e sua plenitude na aproximação da antropologia cultural e da tecnologia de engenharia, para visualizar a conexão das aproximações científicas no entendimento e preservação desse elemento vital.

 

Contacto:

Profa. Dra. Ineke Phaf Rheinberger: phafrhei@cms.hu-berlin.de 

 

 

 

 

3o Encontro de Jovens Investigadores

 

Secção 14 - Encontro de Jovens Investigadores da Associação Alemã de Lusitanistas

Coordenação: Teresa Pinheiro (Chemnitz) e Robert Stock (Konstanz)

 

No 12° Congresso da Associação Alemã de Lusitanistas terá lugar no dia 13 de setembro de 2017 entre as 10:00 e as 16:00 horas o Encontro de Jovens Investigadores da Associação. Este encontro tem como objetivo possibilitar a jovens investigadores a apresentação de resultados finais ou parciais dos seus trabalhos de qualificação. Além disso, pretende fomentar o desenvolvimento de grupos de pesquisa e o contacto entre jovens investigadores que têm os países lusófonos – a sua história, literatura, cultura e/ou língua – como objeto de estudo, uma vez que estes trabalhos, apesar do seu potencial de inovação, acabam muitas vezes encerrados nos arquivos das universidades, sem acesso por parte da comunidade científica.

 

O foco do Encontro de Jovens Investigadores da área de Estudos Portugueses em sentido amplo reside em teses de mestrado e de doutoramento, concluídos ou em preparação, podendo também ser apresentados os resultados de teses de licenciatura (Bachelor) ou estudos derivados destas.

 

Os trabalhos apresentados devem ter um vínculo ao mundo lusófono, independentemente da disciplina em que foram desenvolvidos. São bem-vindos trabalhos dos domínios dos estudos literários, dos estudos linguísticos, da área da didática, das ciências da tradução, dos estudos culturais e dos média, bem como da sociologia, da história e da etnologia, entre outras, uma vez que a Associação Alemã de Lusitanistas tem como objetivo fomentar o diálogo inter- e transdisciplinar na investigação científica sobretemas lusófonos.

 

Dado que o Encontro de Jovens Investigadores da Associação Alemã de Lusitanistas não colide com as secções temáticas, queremos incentivar os jovens investigadores a participarem nestas – com ou sem comunicações próprias.

 

Contacto:

Profa. Dra. Teresa Pinheiro: teresa.pinheiro@phil.tu-chemnitz.de

Robert Stock: robert.stock@uni-konstanz.de